Miguel Medeiros quoted Malcolm X Fala by George Breitman
Para entender isso, você precisa voltar ao que o jovem irmão aqui chamou de “negro da casa” e “negro do campo”, dos tempos da escravidão. Havia dois tipos de escravos, o negro da casa e o negro do campo. Os negros da casa moravam na casa com o senhor, vestiam-se muito bem e comiam bem porque comiam as sobras da comida do senhor. Eles moravam no sótão ou no porão, mas, mesmo assim, moravam perto do senhor; e eles amavam o senhor mais do que o senhor amava a si mesmo. Eles dariam a própria vida para proteger a casa do senhor – mais rápido até do que o próprio senhor o faria. Se o senhor dissesse “Temos uma boa casa aqui”, o negro da casa diria “Sim, temos uma boa casa aqui”. Sempre que o senhor dizia “nós”, ele dizia “nós”. É assim que se reconhece um negro da casa.
Se a casa do senhor pegasse fogo, o negro da casa se empenharia mais para debelar o incêndio do que o próprio senhor. Se o senhor adoecesse, o negro da casa diria: “Qual é o problema, patrão, a gente tá doente?”. “A gente” doente! Ele se identificava com seu senhor mais do que seu senhor se identificava consigo mesmo. E, se você chegasse para o negro da casa e dissesse “Vamos fugir, vamos escapar, vamos nos separar deles”, o negro da casa olharia para você e diria: “Cara, seu louco. O que você quer dizer com nos separar? Onde é que tem uma casa melhor do que esta? Onde vou poder usar roupas melhores do que estas? Onde vou comer comida melhor do que esta?”. Assim era o negro da casa. Naquela época, ele era chamado de o “nigger10 da casa”. E é assim que também os chamamos hoje, porque ainda temos alguns niggers da casa circulando por aqui.
Esse moderno negro da casa ama seu senhor. Quer morar perto dele. É capaz de pagar três vezes mais do que uma casa vale apenas para morar perto de seu senhor e depois se gabar, dizendo: “Eu sou o único negro aqui”; “Eu sou o único no meu trabalho”; “Eu sou o único nesta escola”. Mas ele não passa de um negro da casa. E, se alguém chega até você agora e diz “Vamos nos separar”, você diz a mesma coisa que o negro da casa dizia lá na plantação. “O que você quer dizer com separar? Da América, desse bom homem branco? Onde a gente vai arranjar um emprego melhor do que este aqui?” Ou seja, é isso o que você diz. “Não deixei nada lá na África”, é o que você diz. Ora, você deixou sua mente na África.
Naquela mesma plantação, estava o negro do campo. Os negros do campo é que eram as massas. Sempre havia mais negros do campo do que negros da casa. O negro do campo vivia num inferno. Comia os restos. Na casa do senhor a comida era de luxo. O negro do campo, por sua vez, não recebia nada além do que restava dos intestinos do porco capado. Eles chamam isso de “miúdos” hoje em dia. Naquela época, chamavam do que realmente era – tripas. É isto que você era – um comedor de tripas. E alguns de vocês ainda são comedores de tripas.
O negro do campo era espancado de manhã até à noite. Ele morava numa choupana, numa cabana. Usava roupas velhas, descartadas. Odiava seu senhor. Estou dizendo que ele odiava o senhor. Ele era inteligente. Aquele negro da casa amava seu senhor, mas o negro do campo… lembrem-se disto, eles eram a maioria e odiavam o senhor. Quando a casa pegava fogo, não tentavam apagar; aqueles negros do campo rezavam por um vento, uma brisa que atiçasse o fogo. Quando o senhor adoecia, o negro do campo rezava para que ele morresse. Se alguém chegasse para o negro do campo e dissesse “Vamos nos separar, vamos fugir”, ele não diria “Para onde vamos?”. Ele diria: “Qualquer lugar é melhor do que aqui”. Nós temos negros do campo na América hoje, sim. Eu sou um negro do campo. As massas são os negros do campo. Quando a casa do branco está pegando fogo, você não ouve os negros dizendo “Nosso governo está com problemas”. Eles dizem: “O governo está com problemas”. Imagine um negro: “Nosso governo”! Já ouvi até mesmo um deles dizer “nossos astronautas”. Ora, eles não te deixam nem chegar perto daquele maquinário – e “nossos astronautas”! “Nossa Marinha” – eis aí um negro sem noção, um negro sem noção nenhuma.
Assim como o senhor de escravos daquela época usava o negro Pai Tomás da casa para manter os negros do campo sob controle, o mesmo velho senhor de escravos de hoje tem negros que nada mais são do que os modernos Pais Tomás, os Pais Tomás do século XX, para manter você e a mim sob controle, para nos manter sob controle, nos manter passivos e pacíficos e não violentos. Eis aí o Pai Tomás tornando você não violento. É como quando você vai ao dentista e o sujeito vai tirar seu dente. Você vai se defender quando ele começar a puxar. Então, ele injeta na sua gengiva uma coisa chamada novocaína, para que você pense que não estão fazendo nada contra você. Lá está você sentado, com toda aquela novocaína na gengiva, sofrendo quieto. O sangue escorrendo pela sua gengiva toda e você não sabe o que está acontecendo. Porque alguém ensinou você a sofrer quieto.