Miguel Medeiros quoted Materialismo by Terence Eagleton
Quando São Paulo escreve de forma depreciativa a respeito da carne, ele não está se referindo à nossa natureza física, mas a uma forma específica de vida na qual o corpo e seus desejos saem do controle e se tornam excessivamente insubordinados. O nome que ele dá para esse modo de vida é pecado. Na visão hebraica de Paul, o corpo (soma) é abençoado porque é criação de Deus, enquanto a carne (sarx) é a sua metáfora do modo que ele pode se tornar perverso e patológico. Quando se trata da carne, estamos na esfera das compulsões neuróticas e das repetições patológicas, dos desejos que se tornam rígidos e despóticos. Nesse sentido, podemos dizer que Paulo prenuncia alguns dos insights de Sigmund Freud. Como um materialista somático, Freud considera que a troca ativa entre o corpo do bebê e os corpos dos seus cuidadores está na origem do espírito humano, mas também é a causa da sua doença. É desse intercâmbio íntimo que a gratidão da criança para aqueles que a alimentam surge pela primeira vez, um sentimento que, na opinião de Freud, é a base da moral. Porém, é nesse momento também que o desejo brota pela primeira vez e o inconsciente se abre; e essas forças vão espiar a mente de dentro, distorcendo nossos projetos e percepções. Portanto, para Freud a vida inconsciente brota do tipo de animais materiais que nós somos. Como observa Alfred Schmidt, “a compreensão do homem como um ser carente, sensível e fisiológico é [...] a precondição de qualquer teoria da subjetividade”.30 Parte dessa subjetividade diz respeito àquilo que dentro de nós supera a mente consciente. A fantasia do inconsciente surge das situações mais corriqueiras – a necessidade que o bebê tem dos cuidados contínuos de seus cuidadores, sem os quais ele morre. Essa é a consequência da necessidade material.