Miguel Medeiros quoted Materialismo by Terence Eagleton
O marxismo é, entre outras coisas, uma descrição de como o corpo humano, através dessas próteses conhecidas como cultura e tecnologia, chega a se enredar em seus próprios poderes e fracassar. A história que ele tem para nos contar é, portanto, uma versão moderna daquilo que os antigos gregos conheciam como húbris. O mundo que nós inventamos fica fora de controle e nos reduz a seus mercenários. No entanto, isso não acontece simplesmente porque somos seres produtivos. Para Marx, isso é o resultado das relações sociais nas quais nossas forças produtivas estão aprisionadas. E é nesse momento que seu materialismo somático ou antropológico se transforma em materialismo histórico. Passamos então da descrição do que acontece com o animal humano para o relato de uma narrativa sobre ele. Enquanto nossas forças produtivas são relativamente escassas, assim diz a história, todos têm de trabalhar simplesmente para ficar vivo. Porém, quando a sociedade começa a gerar um excedente econômico alguns indivíduos conseguem se livrar da necessidade de trabalhar, o que resulta no desenvolvimento das classes sociais. Uma minoria consegue assumir o controle da produção, dispor da força de trabalho dos outros e se apropriar de uma fatia exagerada do excedente, enquanto a maioria luta para conservar o que é possível dos frutos do seu trabalho. Começou a luta de classes. Ao mesmo tempo, surgem inúmeros personagens – sacerdotes, bardos, xamãs, conselheiros, curandeiros e afins – que influenciam o que poderíamos chamar de produção espiritual. Seus herdeiros modernos são conhecidos como intelligentsia. Uma função dessa confraria intelectual é apresentar ideias que deem credibilidade ao status quo, um processo que Marx denomina de ideologia. Também existe a necessidade de um poder coercitivo que regule a luta de classes de acordo com os interesses dos exploradores. Ele é conhecido como Estado.