Chamam-se fonemas as unidades combinatórias que pertencem ao sistema de sons de uma língua, dotados de valor distintivo, nas palavras que o homem produz para expressar e comunicar ideias e sentimentos. Os fonemas estão em plano abstrato, no sentido de que só existem como uma imagem acústica armazenada no cérebro do falante [FS.1, 98]. A realização física do fonema, mediante emissão de ondas sonoras pelo aparelho fonador, denomina-se fone. Há casos em que um determinado fonema é realizado fisicamente por mais de um fone, de que decorre falar-se em alofones de um só fonema. [...] Desde logo uma distinção se impõe: não se há de confundir fonema ou fone com letra. Fonema, conforme já observamos, é uma unidade fonológica que existe no plano abstrato, ao passo que o fone é sua realização articulatória,percebida pelo nosso aparelho auditivo. Letra é o sinal empregado para representar na escrita o sistema sonoro de uma língua. Não há identidade perfeita, muitas vezes, entre os fonemas e a maneira de representá-los na escrita, o que nos leva facilmente a perceber a impossibilidade de uma ortografia ideal, entendida como a representação gráfica de um fonema por uma só e única letra. Temos, no português do Brasil, como veremos mais adiante, sete vogais orais tônicas: /a/, /e/, /E/, /i/, /o/, //, /u/; no entanto, tais fonemas são representados graficamente por apenas cinco letras: a, e, i, o, u. Quando queremos distinguir um /e/ (fechado) de um /E/ (aberto), geralmente utilizamos sinais gráficos subsidiários: o acento agudo (fé) ou o circunflexo (vê). Há letras que se escrevem por várias razões, mas que não se pronunciam, e portanto não representam a vestimenta gráfica do fonema; é o caso do h em homem ou em oh!. Por outro lado, há fonemas que não se acham registrados na escrita; assim, no final de cantavam, há um ditongo em -am cuja semivogal não vem assinalada: [a’mavãw)]. A escrita, graças ao seu convencionalismo tradicional, nem sempre espelha a evolução fonética, como também não traça distinção entre os alofones de um fonema.
— Moderna Gramática Portuguesa by Evanildo Bechara (Page 64 - 65)
Fonema, fone, alofone