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Miguel Medeiros

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Miguel Medeiros's books

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Success! Miguel Medeiros has read 48 of 48 books.

Eduardo Galeano: As Veias Abertas da América Latina (Paperback, Português language, 2010, L&PM) No rating

Remontando a 1970, sua primeira edição, atualizada em 1977, quando a maioria dos países do …

Bactérias e vírus foram os aliados mais eficazes. Os europeus traziam, como pragas bíblicas, a varíola e o tétano, várias enfermidades pulmonares, intestinais e venéreas, o tracoma, o tifo, a lepra, a febre amarela, as cáries que apodreciam as bocas. A varíola foi a primeira a aparecer. Não seria um castigo sobrenatural aquela epidemia desconhecida e repugnante que provocava a febre e descompunha a carne? “Lá foram se meter em Tlaxcala”, narra um testemunho indígena, “então se espalhou a epidemia: tosse, grãos ardentes, que queimam”. E outro: “A muitos deu morte a pegajosa, pesada, dura doença dos grãos”. Os índios morriam como moscas; seus organismos não opunham resistência às novas enfermidades, e os que sobreviviam ficavam debilitados e inúteis. O antropólogo brasileiro Darcy Ribeiro estima que mais de metade da população aborígine da América, Austrália e ilhas oceânicas morreu contaminada logo ao primeiro contato com os homens brancos

As Veias Abertas da América Latina by  (Page 37 - 38)

Eduardo Galeano: As Veias Abertas da América Latina (Paperback, Português language, 2010, L&PM) No rating

Remontando a 1970, sua primeira edição, atualizada em 1977, quando a maioria dos países do …

Na Idade Média, uma bolsa de pimenta valia mais do que a vida de um homem, mas o ouro e a prata eram as chaves que o Renascimento usava para abrir as portas do Paraíso no céu e as portas do mercantilismo capitalista na Terra. A epopeia de espanhóis e portugueses na América combinou a propagação da fé cristã com a usurpação e o saque das riquezas indígenas. O poder europeu se irradiava para abraçar o mundo. As terras virgens, densas de selvas e perigos, instigavam a cobiça de capitães, cavaleiros fidalgos e soldados em farrapos, que se lançavam à conquista de espetaculares butins de guerra: acreditavam na glória, “o sol dos mortos”, e na audácia. “Os ousados a fortuna ajuda”, dizia Cortez. O próprio Cortez havia hipotecado todos os seus bens pessoais para equipar a expedição do México. Salvo raras exceções, como foi o caso de Colombo e Magalhães, as aventuras não eram custeadas pelo Estado, mas pelos próprios conquistadores ou por mercadores e banqueiros que os financiavam.

As Veias Abertas da América Latina by  (Page 32 - 33)

Eduardo Galeano: As Veias Abertas da América Latina (Paperback, Português language, 2010, L&PM) No rating

Remontando a 1970, sua primeira edição, atualizada em 1977, quando a maioria dos países do …

Tudo nos é proibido, exceto cruzar os braços? A pobreza não está escrita nas estrelas, o subdesenvolvimento não é fruto de um obscuro desígnio de Deus. Correm anos de revolução, tempos de redenção. As classes dominantes põem as barbas de molho e, ao mesmo tempo, anunciam o inferno para todos. Em certo sentido, a direita tem razão quando se identifica com a tranquilidade e com a ordem. A ordem é a diuturna humilhação das maiorias, mas sempre é uma ordem – a tranquilidade de que a injustiça siga sendo injusta e a fome faminta. Se o futuro se converte numa caixa de surpresas, o conservador grita, com toda razão: “Me traíram”. E os ideólogos da impotência, os escravos que se contemplam com os olhos do amo, não demoram em fazer ouvir seus clamores. A águia de bronze do Maine, derrubada no dia da vitória da revolução cubana, jaz agora abandonada, com as asas partidas, sob um portal do bairro velho de Havana. De Cuba em diante, outros países também iniciaram por distintas vias e distintos meios a experiência de mudança: a perpetuação da atual ordem de coisas é a perpetuação do crime.

As Veias Abertas da América Latina by  (Page 24)

Eduardo Galeano: As Veias Abertas da América Latina (Paperback, Português language, 2010, L&PM) No rating

Remontando a 1970, sua primeira edição, atualizada em 1977, quando a maioria dos países do …

São secretas as matanças da miséria na América Latina. A cada ano, silenciosamente, sem estrépito algum, explodem três bombas de Hiroshima sobre esses povos que têm o costume de sofrer de boca calada. Essa violência sistemática, não aparente, mas real, vem aumentando: seus crimes não são noticiados pelos diários populares, mas pelas estatísticas da FAO. Ball diz que a impunidade ainda é possível porque os pobres não podem desencadear a guerra mundial, mas o império se preocupa: incapaz de multiplicar os pães, faz o possível para suprimir os comensais. “Combata a pobreza, mate um mendigo”, grafitou um mestre do humor negro num muro de La Paz. O que propõem os herdeiros de Malthus senão matar todos os futuros mendigos antes que nasçam? Robert McNamara, o presidente do Banco Mundial que tinha sido presidente da Ford e Secretário da Defesa, afirma que a explosão demográfica constitui o maior obstáculo ao progresso da América Latina, e anuncia que o Banco Mundial, em seus empréstimos, dará preferência aos países que executarem planos de controle da natalidade. McNamara constata, com lástima, que o cérebro dos pobres pensa 25 por cento menos, e os tecnocratas do Banco Mundial (que já nasceram) fazem zumbir os computadores e geram intrincados cálculos sobre as vantagens de não nascer. “Se um país em desenvolvimento, que tem uma renda média per capita de 150 a 200 dólares anuais, puder reduzir sua fertilidade em 50 por cento num período de 25 anos, ao cabo de 30 anos sua renda per capita, quando menos, será 40 por cento superior ao nível que teria alcançado sem reduzir os nascimentos, e duas vezes maior ao cabo de 60 anos”, assegura um dos documentos do organismo. Tornou-se célebre a frase de Lyndon Johnson: “Cinco dólares investidos contra o crescimento da população são mais eficazes do que 100 investidos no crescimento econômico”. Dwight Eisenhower prognosticou que, se os habitantes da terra continuarem a se multiplicar no mesmo ritmo, não só se aguçará o perigo da revolução como também se produzirá “uma degradação no nível de vida de todos os povos, o nosso inclusive”.

As Veias Abertas da América Latina by  (Page 21 - 22)

Eduardo Galeano: As Veias Abertas da América Latina (Paperback, Português language, 2010, L&PM) No rating

Remontando a 1970, sua primeira edição, atualizada em 1977, quando a maioria dos países do …

Nossa riqueza sempre gerou nossa pobreza por nutrir a prosperidade alheia: os impérios e seus beleguins nativos. Na alquimia colonial e neocolonial o ouro se transfigura em sucata, os alimentos em veneno

As Veias Abertas da América Latina by  (Page 18 - 19)

Eduardo Galeano: As Veias Abertas da América Latina (Paperback, Português language, 2010, L&PM) No rating

Remontando a 1970, sua primeira edição, atualizada em 1977, quando a maioria dos países do …

Pelo caminho perdemos até o direito de nos chamarmos americanos, embora os haitianos e os cubanos já estivessem inscritos na História, como novos povos, um século antes que os peregrinos do Mayflower se estabelecessem nas costas de Plymouth. Agora, para o mundo, América é tão só os Estados Unidos, e nós quando muito habitamos uma sub-América, uma América de segunda classe, de nebulosa identidade.

As Veias Abertas da América Latina by  (Page 18)

Han Kang: Atos humanos (Paperback, Portuguese language, 2019, Todavia) No rating

Em maio de 1980, na cidade sul-coreana Gwangju, o exército reprimiu um levante estudantil, causando …

Por não querer ser um fardo para ninguém, voltou a estudar. Com a intenção de partir para o lugar mais longe possível, candidatou-se à universidade em Seul. É claro que aquele local não era um refúgio. Policiais à paisana sempre rondavam pelo campus, e os estudantes eram levados à força pelos militares e inscritos no posto de fronteira. Com frequência, não se podia fazer assembleias, dado o alto risco. Era uma luta na qual se arriscava a vida. Quando as janelas da biblioteca principal eram quebradas pelo lado de dentro e uma faixa comprida era estendida ao longo das paredes externas, isso era um sinal. DERRUBE O ASSASSINO DUWHAN JEON. Um estudante, com a ponta de uma corda amarrada na cintura e a outra presa a uma coluna no terraço, jogava-se do telhado para ganhar tempo, enquanto um policial subia e puxava a corda. Pendurado na corda, o estudante distribuía os panfletos e gritava o lema, e cerca de trinta ou quarenta jovens, homens e mulheres, criavam um tumulto e cantavam na praça em frente à biblioteca. A repressão era agressiva e rápida, e nenhuma canção prosseguia até o final. Nos dias em que você observava aquilo de longe, dormia mal à noite. Mesmo depois de conseguir adormecer, tinha pesadelos e acordava.

Atos humanos by  (Page 94)

Han Kang: Atos humanos (Paperback, Portuguese language, 2019, Todavia) No rating

Em maio de 1980, na cidade sul-coreana Gwangju, o exército reprimiu um levante estudantil, causando …

Houve uma época em que todo mundo falava que ela era bonitinha. Que bonitinha você é… os olhos, o nariz e a boca um pouquinho salientes, e o cabelo parece o de uma dançarina negra… você deve poupar por não precisar fazer permanente no cabeleireiro. Mas o verão dos dezenove anos passou e ninguém mais lhe falava aquelas coisas. Agora tem vinte e quatro anos, e as pessoas esperam que ela seja amável. Esperam que as bochechas sejam coradas como maçãs, a alegria da vida brilhante se acumule nas covinhas de suas bochechas graciosas. Mas ela mesma desejava envelhecer rápido. Desejava que a maldita vida não se estendesse muito.

Atos humanos by 

Etienne Gilson: O tomismo (Paperback, Português language, WMF Martins Fontes) No rating

A obra O tomismo – Introdução à filosofia de Santo Tomás de Aquino, de Étienne …

As cinco vias são essencialmente metafisicas, pois o ente divino cuja existência elas levam a afirmar encontra-se para além da Natureza da qual ele é a causa. Por outro lado, cada uma dessas provas distingue-se das outras por partir de uma experiência física distinta: a motricidade, a causalidade eficiente, a contingência do relativo em relação ao absoluto, o fim como causa do meio. Cada uma dessas vias apresenta-se como distinta das outras, e cada uma o é de fato; cada uma delas leva a afirmar a existência de um ente tal que, se existe, não se pode negar que seja aquele a quem todos chamam de Deus. Notemos, entretanto, que, se o Primeiro Motor é Deus, se a Causa Primeira é Deus, se o Primeiro Necessário é Deus, e assim por diante, não poderíamos dizer sem mais: "Deus é o Primeiro Motor, Deus é a Causa Primeira, Deus é o Primeiro Necessário". Com efeito, se não houvesse nenhum movimento, nenhum ente causado, nenhum participante, Deus não seria menos Deus. Toda prova da existência de Deus fundada sobre um dado da experiência sensível pressupõe a existência do mundo, que nada obrigava Deus a criar. Todos esses aspectos do ente sensível requerem sua causa primeira, donde as vias que conduzem a Deus serem diferentes. Por outro lado, pode-se já pressentir que essa causa é a mesma, e Santo Tomás não deixará de estabelecê-lo a seu tempo, mas seus intérpretes são apressados, o que os faz, às vezes, queimar etapas da investigação metafisica e procurar combinar as cinco vias em uma só ou de maneira a mostrar que elas não constituem senão uma"

O tomismo by  (Page 94)

Etienne Gilson: O tomismo (Paperback, Português language, WMF Martins Fontes) No rating

A obra O tomismo – Introdução à filosofia de Santo Tomás de Aquino, de Étienne …

Consideremos as coisas sensíveis, único ponto de partida possível para uma demonstração da existência de Deus. Constatamos nelas uma ordem de causas eficientes. Por outro lado, não se encontra e não se pode encontrar um ente que seja causa eficiente de si mesmo. Sendo a causa necessariamen-te anterior a seu efeito, um ente que fosse sua própria causa eficiente deveria ser anterior a si mesmo, o que é impossível. Além disso, é impossível recuar ao infinito na série das causas eficientes ordenadas. Já constatamos, com efeito, que há uma ordem das causas motoras, isto é, que elas são dispostas de tal maneira que a primeira é causa da segunda; e a segunda, da última. Essa afirmação permanece verdadeira para as causas eficientes, quer se trate de uma única causa intermediária ligando a primeira à última ou de uma pluralidade de causas intermediárias. Nos dois casos, independentemente do número de causas intermediárias, é a primeira causa que é a causa do último efeito, de modo que, se se suprime a primeira causa, suprime-se o efeito, além do fato de que, se não há primeiro termo nas causas eficientes, também não haverá intermediário nem último. Ora, se houvesse uma série infinita de causas assim ordenadas, não haveria nem causas eficientes intermediárias, nem último efeito. Mas nós constatamos no mundo que há tais causas e tais efeitos; é, portanto, necessário afirmar uma Causa Eficiente primeira a que todos chamam Deus. O texto da prova do Contra os gentios é quase idêntico ao da Suma de teologia; as diferenças estão apenas no modo de expressão, donde ser inútil insistir nelas.

O tomismo by  (Page 78)